O Encontro de Territórios e Saberes
A instalação artística e intervenção social – Manto da Anunciação: renda-se, cálice (cale-se), derrama o verbo encarnado – é idealizada por mim, Tássia Murad Abreu, artista e investigadora, e desenvolvida junto de outros cocriadores, no âmbito do meu doutoramento em Psicologia Social na Universidade Federal de São João del-Rei - UFSJ, em Minas Gerais, Brasil, e no âmbito de investigação no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade - CECS, do Instituto de Ciências Sociais, da Universidade do Minho, em Braga, Portugal.
O tema de minha investigação são as relações corpo-vestimenta-ambiente. Por meio de intervenções artísticas e sociais analiso o potencial da vestimenta nessa inter-relação. Para mim, vestir é cobrir o corpo de significados e comunicar. Com minhas propostas, amplio a noção de corpo individual para um corpo coletivo, e então, visto espaços, lugares, corpos estendidos da cidade.
A Renda Mercês e os Fractais
Inspirei-me nos fractais – onde a parte é igual ao todo e o todo é igual a parte – para cocriar a materialidade da renda Mercês. Essa renda foi feita como bem simbólico da comunidade Alto das Mercês, em São João del-Rei – uma comunidade marginalizada e esquecida pelo poder público, palco, outrora, de marcantes episódios de lutas pela extração do ouro naquele território durante a Guerra dos Emboabas, de 1707 a 1709. Utilizei do desenho geométrico do fractal Curva de Koch para criar o tear de pontos hexagonal que tece a renda Mercês e possibilita uma infinidade de diversos desenhos para a renda.
A materialidade de uma renda evoca uma qualidade de relação entre pontos diversos. Uma renda é ligação ponto a ponto, de vários pontos, por meio de laços, nós e criação de espaços. Inspiro-me naquilo que poderíamos chamar de pluriálogos, tão necessário para a sustentabilidade nas relações humanas e interculturais – espaços de falas, espaços de escuta, espaços de conexão entre todas as partes.
O Eixo Histórico: Brasil - Portugal
Por falar em partes, atuo coletivamente em patrimónios históricos e culturais no eixo Brasil-Portugal. Nasci em Minas Gerais, percebo a similaridade de costumes e representações sociais entre as cidades históricas coloniais de Minas Gerais (São João del-Rei e Congonhas) e Braga, no norte de Portugal – cidade onde me hospedo agora e, inclusive, onde hospeda-se a cruz utilizada na primeira missa celebrada no Brasil em 1500, exposta no Museu da Sé de Braga.
Na região da Sé, onde se realiza a instalação artística, foram encontrados objetos arqueológicos tais como pesos de teares e fusiólas de fiar. Estes objetos fazem parte do espólio cerâmicos identificado nas escavações realizadas pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho - UAUM, e remetem a hábitos bracarenses de I a.C. associados à produção têxtil neste território.
De Portugal herdamos o costume de rendar, de fazer finas e delicadas rendas, enquanto produzíamos internamente e para a Coroa Portuguesa os famosos "panos de Minas" – grosseiros panos de algodão tecidos domesticamente em teares manuais nos interiores das vilas e fazendas. Os panos de Minas se tornaram vitais e circulavam pelas rotas comerciais marítimas em Portugal, Brasil e outras colónias, por serem amplamente usados para vestir os escravizados durante o Império Colonial Português. Tal sucesso, gerou preocupação por parte da Coroa Portuguesa, que resultou no Alvará de 1785, no qual proibia-se a instalação de manufaturas têxteis na colónia, para forçar o Brasil a importar os tecidos da metrópole.
Outra ligação entre os territórios do eixo Brasil-Portugal é o Bom Jesus dos Montes de Braga, que fora inspiração e modelo para a construção do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, de Congonhas, Minas Gerais, considerado a obra-prima de Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho.
A Sombra e a Genialidade de Aleijadinho
Antônio Francisco Lisboa era filho do mestre de obra português, Manuel Francisco Lisboa, e de sua escrava africana, Isabel. Nasceu escravizado e foi alforriado pelo seu pai, assim como sua mãe, no seu batizado, em 1730. Em 1738 seu pai casa-se com Maria Antônia de São Pedro, uma mulher açoriana, e com ela deu quatro meios-irmãos a Aleijadinho. Foi nesta família que o sculptor cresceu. Estudos indicam que aos 40 anos ele começou a sofrer com doença rara e autoimune que tornava sua pele extremamente sensível à luz solar, causando bolhas e feridas, assim como causava o enduring e retração da pele e dos tecidos conjuntivos, o que explica as deformidades nas mãos e a perda progressiva de movimentos, relatadas pelos seus biógrafos. Por este motivo, Aleijadinho se cobria com largas roupas e capuzes, amarrava panos nas mãos, esculpia escondido, muitas vezes à noite, e dependia de assistentes e escravizados para se locomover para o trabalho.
Os Passos esculpido por Aleijadinho no Monte do Maranhão, em Congonhas, de 1796 a 1799, pintados e encarnados por Manoel da Costa Athaide, em 1818 e 1819 – dois importantes nomes da arte barroca e do rococó no Brasil colonial – totalizaram um conjunto de 64 figuras, distribuídas posteriormente em seis capelas ou sete grupos ou “estações da Via Crúcis”, entre elas, o Horto das Oliveiras – cena de aparição do Anjo com o cálice da Paixão, que inspira a instalação artística.
Esta capela possui o mesmo número das figuras e mesma ação dramática do modelo bracarense setecentista no Bom Jesus do Monte, em Braga. Porém, diferentemente, e colocado em posição de destaque pela composição triangular das figuras proposta por Aleijadinho, está o Anjo que anuncia a Paixão ao Cristo. Na mão direita do Anjo, o cálice é uma alusão metafórica à Paixão que se aproxima, entrevista pelo Cristo como um cálice de fel a ser bebido inexoravelmente até a borra final. Posto de joelhos, Jesus ora insistentemente em agonia:
Cálice e Cale-se: A Voz da Resistência
Tal frase inspirou os músicos Gilberto Gil e Chico Buarque a comporem um dos maiores clássicos da Música Popular Brasileira (MPB). A canção “Cálice" foi criada em 1973 como um hino de resistência contra a ditadura militar no Brasil – uma fase de extrema violência e repressão no país, no auge do governo Médici e do AI-5.
A música usa metáforas religiosas para burlar a censura e criticar a repressão da época. A ideia de compor o tema surgiu para ser apresentada no festival Phono 73. No entanto, durante o evento, os microfones dos artistas foram cortados pelos censores e a música foi proibida de ser cantada. Para conseguir aprovação ou confundir os censores, Gil e Chico usaram um inteligente jogo de sonoridade e metáforas.
Na expressão "Pai, afasta de mim esse cálice”, a palavra cálice soa exatamente como a ordem imperativa “cale-se”, referindo-se à censura e à mordaça imposta à população. E versos como “beber dessa bebida amarga” e “vinho tinto de sangue” são alusões ao sangue derramado pelas vítimas da ditadura.
Como a versão em duo de Gil e Chico foi censurada e proibida em 1973, a música só ficou conhecida pelo grande público anos depois, em 1978, quando Chico Buarque, por estar em outra gravadora que não a de Gilberto Gil, acabou gravando a canção oficialmente no seu álbum Chico Buarque com a participação e arranjos vocais de Milton Nascimento.
A Reinterpretação Feminista e Contemporânea
Na versão composta para a instalação, convidei duas musicistas para interpretarem a canção – Clara Torres (vocal), investigadora brasileira visitante no CECS, e Leonor Vanzeler (violoncelo), mestranda em Media Arts, na Universidade do Minho. Durante a gravação, juntos e na companhia de Luís Pinto, compusemos novos arranjos e criamos uma interpretação única e feminista para a canção, na qual Leonor transgride sua partitura pré-meditada e Clara anuncia seus versos atuais que refletem a figura do “Pai”, o calar/falar e as violências de géneros. Guilherme Cruz e Silvio Ferreira, artistas e colegas dos novos medias, também foram convidados para criar os visuais da performance Cálice a ser projetada na fachada da Torre da Sé. É de valor para mim assumir, neste texto-tecer, que essas pessoas me tocaram, sentimentalmente, cada uma da sua forma, e aumentaram minha potência de existir e agir, tal como diz Espinosa sobre os bons encontros.
Meu trabalho anterior, intitulado Santificado seja (2013), também é inspiração para esta proposta. Pelo trabalho artístico buscava trazer as virtudes santas para pessoas comuns na contemporaneidade. Para isso, por meio da técnica de gravura e de serigrafia, eu intervia nas vestimentas das representações das esculturas de algumas figuras dos Passos, esculpidos por Aleijadinho, e uma delas era O Anjo anunciando a Paixão de Cristo com o cálice na mão. Vale também assumir que este trabalho foi inspirado na Paixão de minha mãe, Margarida. Em 2013 (um ano de paixões na minha situação de vida), com mania das histórias dos Santos, ela me contava entusiasmada sobre algumas histórias e gostava particularmente de Santa Tereza de Ávila por perceber sua personalidade profana e sagrada ao mesmo tempo. Mesmo se tornando ecuménica e de fé plural, minha mãe era de origem católica e me consagrou ao Anjo Gabriel quando nasci, assim como meus irmãos a outros Santos.
São Gabriel, que também faz a anunciação à Maria da vinda de Jesus Cristo e dos novos tempos pelo seu ventre, por seu papel como o grande portador de mensagens divinas, foi declarado pelo Papa Pio XII como o padroeiro das comunicações, incluindo rádio, televisão e tecnologias. Interessante eu descobrir isso justamente agora e aqui em Braga onde estou como investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, do Instituto de Ciências Sociais.
Portanto, a proposta da instalação artística desenvolvida no âmbito dos estudos de Comunicação e Sociedade na Universidade do Minho em Braga, visa rememorar esse personagem portador de mensagens e inserí-lo na contemporaneidade. Os dois temas de anunciações do Arcanjo Gabriel, paixão e novos tempos, são os motes para inspirar os participantes nos desejos de anunciação. Isso se dará por meio da criação das rendas mercês no tear digital reproduzido para a instalação, com o objetivo de experimentar e criar o Manto da Anunciação.
O Laboratório ALICE e o Espaço Comum
Para reformular a interface no tema da instalação, convidei os integrantes do grupo ALICE e parceiros de criação da interface tear Mercês original – Igino de Oliveira e Flávio Luiz Schiavoni. ALICE é o acrônimo para Arts Lab in Interfaces, Computers and Everything else (Education, Exceptions, Experiences, Entertainment, Environment, Entropy, Errors, Everything, Else and Etcetera). Inspirado por “Alice no País das Maravilhas”, o laboratório combina ciência da computação com artes, buscando explorar ideias peculiares e criativas. O ALICE é composto por estudantes de graduação e pós-graduação de diversas áreas do conhecimento (ciência da computação, música, artes aplicadas, arquitetura, teatro, história, biologia, entre muitos outros) sendo um laboratório transdisciplinar que fala sobre a interseção de tecnologia e arte.
A proposta da intervenção é criar um ambiente comunicativo aberto, não influenciado (como no controle algorítmico de entrega das redes sociais atualmente), no qual as pessoas possam se engajar, anunciar e interagir. Por meio de suas telas de celulares cocria-se coletivamente e instantaneamente outra grande tela — o Manto da Anunciação — que cobre a fachada da Torre da Sé com outros significados e novas narrativas. Assim, a projeção das rendas digitais e mensagens sobre o corpo estendido encarna os sentimentos da coletividade em um padrão têxtil único de cores e rendas diversas tecidas pelos participantes (corpo coletivo).
Faz parte da identidade cultural de Braga, hoje, o cruzamento entre patrimónios históricos, tradições, rituais, religiosidades, práticas criativas, inovações e experiências respeitosas do público com os espaços e os ambientes culturais da cidade.
A instalação da escultura feita do manto tecido com rendas mercês originais e um cálice, convida os transeuntes/participantes a se colocarem com seus corpos na obra antes da intervenção digital. A escultura convida a ritualizar e a encorpar a experiência ao propor que o participante sacralize sua ação de anunciar ao vestir-se com o manto. Tal como sugere o enunciado do subtítulo da obra, experencia-se a vestimenta-ação ao render-se, calar-se e então derramar o verbo encarnado.
Portanto, essas são minhas motivações de investigação e instalação artística que cruzam fronteiras espaciais, saberes tradicionais e cibernéticos, religiosidade e novas tecnologias.
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